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Os activistas dos ciclistas e os activistas das bicicletas

O mundo do cicloactivismo português expandiu-se e diversificou-me imenso nos últimos 10 anos. O tempo, a difusão do tema, a crise e o desemprego, a bolha especulativa da bicicleta, e o crescimento da base de pessoas envolvidas, levou também a que se revelassem as divergências entre elas. Faltam é fóruns onde se debatam essas ideias para se poder avançar na melhor direcção.

Na verdade, e antes de mais, importa perceber o que é o cicloactivismo, ou o que é que isso significa para cada um de nós.

A minha própria transformação em cicloactivista ocorreu cerca de 2005 e teve como motivação conseguir melhores condições para o uso da bicicleta como meio de transporte. Para mim própria, claro, e para todos os que, como eu, o faziam ou queriam fazer.

Para mim, a motivação para trabalhar em prol de convencer mais pessoas a usar a bicicleta como meio de transporte foi sempre secundária, era apenas a consequência lógica de:

1) querer partilhar com os outros algo de que gosto

2) saber que para ter os meus direitos reconhecidos e para haver serviços adaptados ao meu estilo de vida, teria que haver uma massa crítica de pessoas a partilhá-lo, e

3) saber que a bicicleta é uma opção de transporte que torna mais viável a concepção de cidade viva e sustentável em que eu desejava viver.

Sou, portanto, fundamentalmente uma activista dos direitos dos utilizadores de bicicleta. Nunca pretendi ser uma activista das bicicletas. Mas sou uma activista por cidades mais humanas, mais saudáveis, mais interessantes, mais ricas, onde as bicicletas são uma ferramenta importante.

Não me interessa uma medida que prometa aumentar o número de bicicletas em circulação mas que degrade as condições para o seu uso e não resolva os problemas da cidade. Pior ainda se promete e não cumpre (ou se não é essa a medida que efectivamente cumpre).

Ora, nos últimos anos, com a moda e a bolha da bicicleta, muito se fala de bicicletas e de ciclistas, e o cicloactivismo, como referi, alastrou-se e diversificou-se, envolvendo pessoas de áreas profissionais, experiências e interesses muito diferentes. E o que acaba por acontecer na grande maioria das vezes é que se faz activismo das bicicletas e não activismo dos ciclistas, ou das pessoas no geral, por ignorância e também, por vezes, por se acreditar que é impossível conseguir obter o que se quer e por isso mais vale pelo menos obter-se o que nos querem dar. Tudo com a melhor das intenções, acredito, mas nem sempre com as melhores consequências.

O exemplo mais recente deste tipo de cicloactivismo a surgir nas redes sociais é o projecto Lisboa Horizontal, um dos candidatos ao concurso Ideias de Origem Portuguesa, uma iniciativa que visa premiar e apoiar projectos de empreendedorismo social:

Vou usá-lo apenas como desculpa para falar deste tema, não porque seja necessariamente melhor ou pior que outros anteriores. É apenas ilustrativo destas questões.

O vídeo de apresentação do projecto começa com a enumeração de lugares comuns da promoção do uso da bicicleta:

  • + poupança
  • + saúde
  • + emprego
  • + consumo local
  • + fitness
  • + qualidade de vida
  • – custos SNS
  • – poluição do ar
  • + sustentabilidade urbana
  • Lisboa seria uma melhor cidade para viver

E tudo isto será verdade,… se esse uso da bicicleta vier substituir o uso do carro (ou da mota). Se vier substituir o andar a pé, já não será bem assim. Se vier substituir o uso de transportes públicos, idem. E se esse uso da bicicleta não vier substituir outro modo de transporte mas representar deslocações que não eram feitas antes, tem que se analisar que outra actividade alternativa a pessoa fazia com o seu tempo antes de decidir trocá-la por andar de bicicleta.

Minudências à parte, o impacto do uso da bicicleta só pode ser avaliado comparando o antes e o depois. E as “vantagens da bicicleta” para a comunidade só o são se menos bicicletas significarem menos carros e motas, e não menos peões e utilizadores de transportes públicos.

Continuando, depois desta introdução, a equipa apresenta o objectivo do projecto:

transformar a bicicleta num meio de transporte viável e acessível a todos (cidadãos e turistas)

Este é outro ponto em comum com inúmeros outros projectos e ideias do género, o problema é que o projecto não pretende transformar a bicicleta. Isso seria se a ideia fosse um qualquer modelo revolucionário de velocípede que servisse melhor as necessidades hipoteticamente não atendidas do público no que à bicicleta como meio de transporte diz respeito. Um progresso tecnológico qualquer de uma bicicleta dobrável, eléctrica, de carga, ou o que fosse, melhor do que o que existe.

Não, o que o projecto vai propôr é transformar a cidade, e de forma a torná-la mais propícia ao uso da bicicleta por uma maior fatia da população, ou pelo menos assim acreditam os autores.

O óbice primordial identificado para esta acessibilidade mais abrangente são as colinas de Lisboa, e por isso propõem uma rede de ciclovias a ligar as principais zonas da cidade, inspirada nas linhas do Metro, e com menos de 4 % de inclinação.

criando uma nova e eficiente forma de circular em Lisboa

Segundo os autores, Lisboa tem 1093 Km de ruas, e 63 % desses quilómetros são virtualmente planos e, por isso, acessíveis a toda a gente [do ponto de vista do esforço físico, depreende-se]. Uns “25 % para entusiastas e 12 % só para os corajosos.” Com base nisto, criariam uma rede de ciclovias planas, visíveis e úteis para todos.

Uma proposta de rede de percursos planos é uma consequência lógica de considerar que as subidas são um obstáculo relevante para a adopção da bicicleta como meio de transporte por uma maior fatia da população. Embora, se só 12 % dos quilómetros de ruas em Lisboa são realmente inclinados e 63 % são mesmo planos, provavelmente o que está a deter as pessoas de usarem a bicicleta não são as colinas de Lisboa, mas as colinas mentais de cada um.

Mas adiante, vamos focar-nos na parte positiva e distintiva desta ideia: a criação de rotas privilegiadas para a navegação da cidade de Lisboa em bicicleta. Ter algo assim, uma rede de “linhas” coerente, bem pensada, sinalizada de forma inteligente, e bem visível, faria muito por derrubar essas tais colinas mentais das pessoas. Esta é uma ideia que apoio com entusiasmo, e que vai de encontro à ideia de que falei no outro dia.

Contudo, por muito apelativa que seja a ideia de pintar ciclovias de diferentes cores pela cidade, essa raramente é a melhor solução, para os ciclistas e para a cidade como um todo, e é nesta parte que o projecto perde o meu apoio, por propagar este cliché, este mito das ciclovias como solução, que adia a resolução dos problemas da cidade e das pessoas que nela vivem, trabalham e consomem.

ilustração

Haverá sítios onde uma ciclofaixa (uma faixa de rodagem só para bicicletas), correctamente desenhada e construída, possa ser a solução mais adequada, mas tal será a excepção no centro da cidade. E algo como chega a ser mostrado no vídeo, como a imagem acima, é simplesmente errado e nunca deveria ser apresentado em público por muito “versão rascunho” que seja, pois propaga e perpetua esta ideia de que “basta pintar um corredor no chão”, sem nenhuma preocupação a nível de engenharia de tráfego, criando autênticas ratoeiras para as pessoas que se deslocam de bicicleta, principalmente para aquelas que confiam na tinta, que confiam nas autoridades que implementaram aquelas infraestruturas.

A segregação principal a fazer é do automóvel, não da bicicleta.

Temos que retirar tráfego de atravessamento de muitas das ruas da cidade, tornando-as pouco permeáveis a automóveis, mas hiper-permeáveis a bicicletas e peões. Isso conjugado com a tal optimização de grandes rotas e sinalização muito visível e clara das várias “linhas”, terá um muito melhor efeito global na qualidade de vida da cidade ao reduzir a poluição atmosférica e sonora e o risco rodoviário, e ao restringir a liberdade do elemento mais ameaçador, o automóvel, devolvendo às crianças, aos velhos, aos animais domésticos e a todos nós, o direito de desfrutar da rua sem medo de sermos mortos ou feridos por um carro cujo condutor só quer usar a nossa rua como atalho.

Será também mais barato para os cofres públicos e será mais seguro para quem anda de bicicleta, ao evitar todas as complicações originadas pela segregação de veículos por tipo e por velocidade e destino.

Porque as colinas, as físicas e as mentais, não são a única coisa a impedir as pessoas de escolherem ir de bicicleta, nem sequer são a mais importante. Há o medo, há a falta de preparação, há a vergonha, há a ignorância, há a preguiça, há o hábito, etc, etc…

3 thoughts on “Os activistas dos ciclistas e os activistas das bicicletas

  1. Rui diz:

    Concordo totalmente com o ponto de vista deste artigo.
    O q interessa é melhorar a qualidade de vida das pessoas (mas diria, nas cidades, nas vilas e nas aldeias), não é aumentar a utilização da bicicleta por si!

  2. Cara Ana,
    Agradecemos muito ilustrar a nova tendência do cicloactivismo com o nosso projecto – Lisboa Horizontal.
    Este projecto está na realidade a dar os primeiros passos, pelo que todo o feedback e sugestões são mais que bem-vindas!
    O nosso projecto não se foca na abolição dos automóveis e da utilização de transportes públicos nem sequer pretende substituir o andar a pé.
    Pretendemos sim mostrar a cidade de Lisboa despida do preconceito das tais colinas mentais que tão bem enunciou, através das tais rotas privilegiadas. No fundo não inventamos nada de novo, só mostramos a cidade através duma perspectiva diferente, de uma perspectiva mais horizontal 🙂
    Neste momento residimos em Bruxelas, talvez a cidade menos amiga das bicicletas da Bélgica. Ainda assim a cidade esta cheia de ciclovias, e qd não ha espaço para ciclovias, ha sinais de bicicletas desenhadas na estrada para marcar uma posição, quanto mais não seja para relembrar aos automobilistas que as bicicletas existem!
    Já tínhamos identificado o erro na imagem da ciclovia amarela já o corrigimos no nosso novo vídeo https://vimeo.com/122147173.
    Acreditamos ser possível humanizar as cidades e devolver a rua as pessoas, mas tb acreditamos que e possível que bicicletas, carros, autocarros e etc possam partilhar a rua de uma maneira equilibrada e eficiente.
    Obrigada por partilhar o nosso projecto e pelas sugestões!!

    1. Olá Inês,

      Como referi no texto, sou grande fã da ideia das rotas. O que eu condeno é a promoção da segregação das bicicletas em vez da segregação dos automóveis. Porque 1) não resolve os problemas da cidade e 2) não contribui, em regra, para aumentar a segurança e a eficiência da bicicleta como meio de transporte, pelo contrário, o que reforça o ponto 1).

      O novo vídeo que linkou não está a tocar, pelo que não consigo ver a correcção que fizeram, mas obrigada pelo esforço, e por este comentário.

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