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Ribeira das Naus: o barómetro da cidade que Lisboa quer ser?

Ontem, domingo de sol, brisa e temperatura perfeitos (per-fei-tos) eu e o respectivo saímos de casa (entre a Graça e Santa Apolónia) pelas 16h, a pé, rumo à Ribeira das Naus, para nos deitarmos na relva a apanhar sol durante 2 ou 3 horas, e pormos alguma da leitura (ou pelo menos do dolce far niente) em dia. Foi a primeira vez que o fizémos naquela zona e fomos para lá especificamente e apenas porque sabíamos que o trânsito automóvel estava vedado e poderíamos assim desfrutar do espaço como não seria possível se esse mesmo tráfego rodoviário por lá passasse. E sabendo que essa interdição de tráfego é temporária, maior é a importância de aproveitar enquanto dura!

Em busca de um lugar ao sol, na relva (na Ribeira das Naus)
Autoria: Ana Pereira

Não fomos os únicos, claro. Havia muita gente a circular, e muita gente a desfrutar daquele ambiente espectacular num dia tão aprazível. E porque é que é um ambiente tão agradável, tão bonito e tão único em Lisboa?

Em que outro local da cidade podemos sentarmo-nos ou deitarmo-nos na relva a apreciar o céu, o rio e as pessoas a passar, sem termos que gramar com a poluição visual, sonora e atmosférica do tráfego automóvel ou até mesmo do estacionamento automóvel? Tirando a zona Norte do Parque das Nações, em nenhum. Só que o Parque das Nações, embora mais qualificada/moderna, é uma zona periférica da cidade. O centro da cidade, o centro histórico, o centro turístico, não tem nada assim.

 

Ribeira das Naus 8 de Junho 2014 Autoria: Ana Pereira

Ribeira das Naus 8 de Junho 2014
Autoria: Ana Pereira

O meu pormenor favorito são as rampas relvadas. Permitem apreciar toda a zona e o rio de uma forma privilegiada. É um exemplo, não tão comum, de compatibilização bem conseguida entre a ideia do arquitecto e a usabilidade e atractividade para o utilizador. («A existência dos dois grandes planos inclinados relvados no centro da área de intervenção recuperando a geometria e o conceito dos antigos vazadouros, cria uma tectónica do pavimento que garante o isolamento (pela diferença de cotas) das zonas próximas ao edifícios e afectos à função militar;»)

 

Ribeira das Naus 8 de Junho 2014 Autoria: Ana Pereira

Ribeira das Naus 8 de Junho 2014
Autoria: Ana Pereira

É possível consultar aqui um folheto divulgado pela CML, nesta página os detalhes do projecto, e aqui outras informações. Mas basicamente é isto:

Projecto

Projecto
Foto: Skyscrapercity.com

Sendo que este era o “antes” mais recente:

Ribeira das Naus antes Autoria: Google

Ribeira das Naus antes
Autoria: Google

Acredito que podia ter sido evitado o abate de tantas árvores adultas aparentemente sem justificaçãopelos vistos (as coisas vivas são mais importantes que os conceitos arquitectónicos, são estes que se devem adaptar às primeiras e não o contrário, não?). Vamos ter que esperar muito anos até que as que lá plantaram atinjam o porte das que foram derrubadas.

Neste vídeo apresentam um pouco da história do local e detalhes do projecto:

Aqui mostra-se o antes, o depois e um temporário entre eles, da circulação automóvel…:

Projecto

Projecto
Foto: Skyscrapercity.com

Postal do Terreiro do Paço nos anos 50

Felizmente, actualmente desde há algum tempo que a circulação automóvel aqui tem sido vedada, poupando também o Terreiro do Paço. Toda a zona parece outra, respira-se bem, ouvem-se as pessoas e o rio, podemos andar à vontade sem medo de sermos atropelados, podemos deixar as crianças brincar e correr.

Mas na verdade, podiam ter revertido a zona ao que chegou a ser (até pelo menos aos anos 50?), uma área sem atravessamento automóvel. Porque a bem dizer que a cidade sobreviveu, não colapsou, durante o tempo todo em que o tráfego automóvel esteve banido, certo? As pessoas foram por outros caminhos, ou de outros meios de transporte, ou abdicaram daquelas deslocações, ou aguentaram-se aos congestionamentos para os quais contribuíram. Adaptaram-se. E a zona não morreu. Porque se tornou ainda mais diferenciada e atractiva para as pessoas (e não simplesmente para as pessoas dentro de carros, de passagem, essas só querem usar a zona mesmo para isso, passar).

A nova avenida abriu ao trânsito automóvel em Março de 2013 e rapidamente encheu (vídeo TVI). Entretanto, desde o início de Abril deste ano (2014), fecharam novamente o acesso aos carros e ainda não há data prevista de reabertura.

Aviso

Aviso
Autoria: Bruno Santos

Mas são a própria autarquia e juntas de freguesia a falhar na comunicação. À JF do Parque das Nações, por exemplo, não lhes ocorreu lembrar as pessoas que podem recorrer ao transporte público em vez de se sujeitarem e contribuírem para congestionar e poluir as alternativas rodoviárias que eles indicam. Estes avisos, no local ou online, podiam e deveriam incluir alternativas como estacionar num parque próximo e continuar de transporte público. Lembraria as pessoas do absurdo que é queixarem-se dos congestionamentos (vídeo da R. do Arsenal) e atribuírem a culpa à “falta de estradas” e não ao facto de andarem todos os dias pelo meio da cidade sozinhas dentro de um veículo com capacidade para 5 pessoas e carga, numa cidade com não sei quantas linhas de comboio, metro, autocarro e metro, além de táxis e agora até serviços de carsharing.

carros

Carros na ribeira das naus
Autoria: TimeOut

Aliás, se durante as obras no Terreiro do Paço e depois na Ribeira das Naus, o passar de 2 vias em cada sentido para apenas 1 já piorou os congestionamentos, o que levará a Câmara a achar que, logo que reabra a avenida aos carros,  o cenário não será o mesmo, mas agora no meio daquelo belíssimo espaço público [re]construído?

Vamos passear junto ao rio ou deitarmo-nos na relva a ouvir os motores dos carros e o seu rolar sobre o empedrado, a respirar os fumos dos seus escapes e admirá-los no seu belo enquadramento paisagístico com o rio?… 

Construir um sítio tão bonito e depois deixar uma corrente de automóveis entrar por ali dentro é como construir uma linda lagoa e depois ligar lá um esgoto a céu aberto.

Atenção, no geral aplaudo e, como cidadã que vive e trabalha em Lisboa, agradeço, a intenção e a acção da CML de requalificar esta zona.

O que havia antes era uma vergonha, e mais um exemplo do desperdício que é feito da frente ribeirinha lisboeta (que pude ir “apreciando” na caminhada entre Santa Apolónia e a nova Ribeira das Naus, de resto). Contudo, tenho várias coisas negativas desnecessárias a apontar, além da óbvia (a permeabilidade aos carros).

A zona pedonal do lado do rio torna-se apertada para tanto tráfego, e sinuosa. Uma pessoa não se pode distrair com a paisagem que arrisca colidir com uma árvore. 🙂 Não tinha que ser assim. Podia haver um canal desimpedido a par deste arranjo das árvores.

Autoria: Ana Pereira

Autoria: Ana Pereira

Alguns apontarão aquele “passeio” ali do lado direito, entre o lancil e aqueles marcadores-derruba-ciclistas. Sim, mas esse empedrado é mais irregular que este onde estão as árvores, não é uma opção muito confortável para quem empurre carrinhos-bebé ou cadeiras-de-rodas, por exemplo.

Da mesma forma, não se percebe porque é que optaram por um piso irregular para a ciclovia. Nem vou comentar o facto de ser integrada na zona pedonal, convidando aos conflitos do costume com quem caminha, está e brinca ali…, só piorado pela quase inexistente diferenciação de pavimento (a nível visaul, cromático, táctil, o que seja), ou a largura estreita como sempre que não permite circular, de forma descontraída, a par por uns metros que fosse ao atravessar esta área. Ou o facto de a ciclovia não continuar também para o Largo do Corpo Santo, para quem pretenda seguir ou vir dessa direcção…

Ribeira das Naus 8 de Junho 2014 Autoria: Ana Pereira

Ribeira das Naus 8 de Junho 2014
Autoria: Ana Pereira

O problema não é a falta de ciclovia, claro, o problema é que a faixa de rodagem normal tem um piso horroroso para bicicletas, complementado por uns marcadores branco, circulares, convexos, escorregadios, que podem provocar quedas. E para melhorar esse cenário, há por ali uns pilaretes em formato de cruz, que em caso de queda em cima de um, o risco de lesões feias é muito elevado…

Presumo que mais tarde hão-de colocar no meio das árvores bancos com costas, para as pessoas poderem parar e descansar sem ser no chão, desapoiadas. E que irão colocar parques de estacionamento para bicicletas junto à relva, cá em baixo, para quem queira ir para a relva não ter que levar a bicicleta atrás.

Mas o grande crime aqui é mesmo a reabertura ao tráfego automóvel. É inconcebível.

E pensar que estava previsto um silo automóvel para albergar mais de 100 carros da Marinha… Vá lá que o IGESPAR travou esse plano… Faria algum sentido, num interface de transportes públicos como é o Cais do Sodré, e com dois parques de estacionamento subterrâneo ali a dois passos?…

Entretanto, no início de Maio surgiu uma página no Facebook a defender o que é lógico para qualquer pessoa com 2 dedos de testa e um mínimo de cultura e mundo, manter os carros fora da nova Ribeira das Naus. Só falta preparar e divulgar uma petição, como se fez para rejeitar o silo.

Pois o que é que NÃO faz falta nem sentido [re]aparecer neste cenário?…

 

Ribeira das Naus vista do rio Autoria: Ana Luísa Alvim

Ribeira das Naus vista do rio
Autoria: Ana Luísa Alvim [foto recortada]

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Jogos informais
Autoria: Ana Pereira

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